No novo MCMV, terreno doado pesa como investimento

Clara Belvera
Por Clara Belvera
Guilherme Campos

Até pouco tempo, a participação da prefeitura num projeto do Minha Casa Minha Vida costumava se resumir a aprovar plantas e liberar alvará. Guilherme Campos, empresário do setor imobiliário, observa que essa lógica mudou de forma significativa a partir de 2026, quando o terreno doado pelo município passou a valer como parte financeira do próprio programa.

Antes, o papel do poder público era essencialmente burocrático. Agora, ele entra no negócio como quem aporta capital, só que na forma de terra em vez de dinheiro em espécie, o que muda a conversa entre prefeituras e construtoras interessadas em projetos habitacionais desde a primeira reunião de planejamento.

O que muda no papel da prefeitura a partir de 2026?

As novas diretrizes do programa, em vigor desde janeiro deste ano, tratam a doação de terreno pela prefeitura como contrapartida patrimonial dentro do financiamento, não apenas como um gesto de boa vontade que facilita a aprovação do projeto perante os órgãos competentes. A mudança também redefine quem toma a iniciativa: municípios que antes só reagiam a propostas de construtoras agora podem sair na frente, oferecendo terra como parte da negociação.

Isso significa que áreas públicas ociosas ou já urbanizadas passam a ter peso direto na viabilidade financeira de um empreendimento habitacional, algo que antes dependia quase inteiramente do orçamento da construtora e dos recursos do Fundo de Arrendamento Residencial. Prefeituras deixam de ser apenas fiscais do processo e passam a compor, de fato, o capital que sustenta o projeto do início ao fim.

Como isso funciona na prática?

Guilherme Campos aponta que, ao doar o terreno, o município reduz o custo total do empreendimento sem gastar dinheiro do próprio caixa, o que viabiliza projetos que dificilmente sairiam do papel só com recursos privados e financiamento tradicional, especialmente em cidades com orçamento municipal apertado e poucas alternativas de investimento direto em habitação.

Guilherme Campos
Guilherme Campos

O teto de valor dos imóveis também subiu em algumas faixas do programa neste novo ciclo, o que amplia o tipo de empreendimento que pode se encaixar nas regras, incluindo projetos um pouco maiores do que os tradicionalmente associados à habitação popular no imaginário de quem acompanha o setor.

Por que isso importa mais para cidades como as de Roraima?

Guilherme Campos salienta que, em estados onde uma parcela expressiva da população ainda vive de aluguel, como mostram levantamentos recentes do IBGE sobre Roraima, ter um mecanismo que reduz o custo estrutural de um empreendimento habitacional pode acelerar a chegada de moradia formal para quem mais precisa dela.

Municípios com terra pública disponível e ainda subutilizada ganham, com essa mudança, um instrumento concreto para atrair construtoras interessadas em projetos de interesse social, sem depender só de verba orçamentária direta para viabilizar cada novo empreendimento habitacional na cidade, algo especialmente relevante em regiões onde o orçamento público já é apertado.

O que isso representa para quem constrói e para quem busca moradia?

Para incorporadoras, a doação de terreno reduz o risco financeiro do projeto logo na largada, já que uma parte relevante do custo total deixa de vir do próprio bolso da construtora. Para quem sonha com a casa própria, significa mais unidades entrando no mercado dentro de faixas de renda que, até então, tinham poucas opções disponíveis na cidade.

Guilherme Campos considera que essa parceria mais ativa entre poder público e iniciativa privada tende a se tornar peça central para qualquer cidade que queira reduzir seu déficit habitacional nos próximos anos, em vez de apenas administrar filas de espera por moradia digna. Quem quiser acompanhar mais sobre acesso à moradia e mercado imobiliário pode seguir o perfil @guicamposvlg no Instagram.

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